O Piano

É quando estás no incompetente inconsciente, naquela fase do não sei que não sei, que te tomas decisões ilógicas, decisões baseadas numa superficialidade perigosa para quem quer viver com o centro em harmonia.
Nestes momentos é mais fácil agir do que pensar, fazer do que refletir, ingerir do que saborear.

Tinha alturas que me lembrava de um afinador de piano.
Eu tocava as notas e ele afinava o instrumento, com delicadeza, com mestria, quando o que eu queria era rapidez, força, resultados, sem me lembrar que ele estava ali a tratar daquele delicado instrumento, que precisa de calma, de dedos e gestos de veludo para nos dar o som mais bonito e harmonioso.
Se me tocares com o coração, sem estares à espera do resultado final, mas usufruíres do momento enquanto tocas, terás o melhor de mim, afeto e paz. – disse-me o piano.
Teimava em tocar aquele instrumento de uma forma superficial, olhando para uma pauta, desgastado de não acertar nas notas que queria ouvir.
– Tenta, tens medo de quê? – voltou a dizer o piano.
Todos os dias passava ao lado dele, olhava-o e imaginava de como seria bom saber tocar aquele instrumento. Limitava-me a olhar para ele e a apreciar a sua robustez, as suas linhas, a sua função de decoração da sala.

Sabia muito bem para que servia um piano, mas nunca me tinha atrevido a tocar-lhe, talvez não quisesse consciencializar-me de que não sabia tocar, que afinal eu não sabia tudo.
Não tinha de ser um Chopin, Beethoven ou Mozart, tinha de ser eu próprio. Para eles, as notas que tocavam e consequentemente o som que saia do piano, eram as suas melodias, única e exclusivamente para eles.

Música

Já pensaste que se eles tocassem para alguém e não para eles, a sua obra não teria perpetuado?
Para quem é que tocas as tuas melodias?
Sentei-me à frente do piano. Com receio, deixei suavemente as minhas mãos caírem sobre as teclas, sentindo a sua delicadeza, leveza e suavidade.
Sem pauta ou qualquer indicação comecei a tocar, sentido todas as teclas e vivendo todos os sons, únicos até aí.
Sempre que parava a contemplá-lo, na minha cabeça, tudo saia certo, mas as minhas mãos pareciam não obedecer ao que a minha cabeça idealizava.
– Porque é que te estás a preocupar com o resultado se não estás a apreciar o caminho? – perguntou o piano.
Continuei a tocar, sem me preocupar com o resultado. À medida que me ia esquecendo do todo, comecei a apreciar as partes, os bocados, os pequenos momentos, cada nota, que para mim, já tinham virado música.

A música atinge lugares no ser humano que nenhuma outra arte chega. Há coisas neste mundo que só os artistas sentem e percebem, e o músico, tu, és simplesmente um dos mais sensíveis ao que te rodeia.

Não tenhas receio de tocar o piano da tua vida, ela dá-te as notas. Notas ruidosas ou melódicas, tudo depende da forma como as tocas.
Não te preocupes com o resultado final, mas com o prazer que tens ao estar a tocar, pois é enquanto estás a tocar, enquanto estás sentado à frente do piano que o coração transborda, que sentes uma vibração interna única e não o resultado final, esse, é o final, quando já deixaste de tocar.
A música é o que queres que ela seja. É o teu coração que te vai dizer qual é a música que te vai fazer expressar as sensações mais profundas. Aprecia a tua música, apaixona-te por ela, respeita-a, não a desvalorizes, ela é só tua.

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