O Encontro

Era desconfortável, inquietante e por vezes até agonizante. Não entendia porquê, era como uma luta interna esgotante, como se algo se quisesse sobrepor à minha pessoa, à minha consciência.

Tentava mascarar essa inquietude interior focando-me em estímulos externos, adiando inconscientemente esta necessidade do verdadeiro encontro.
Passaram-se anos, a minha vida era rápida demais para a lentidão da minha consciência, para olhar calmamente para dentro e ouvir, interpretar, o que o meu inconsciente tinha para me dizer.
Pensava que tinha encontrado o meu equilíbrio, tal era a pressa que tinha de viver, de alcançar os meus objetivos, sem sequer olhar para o caminho e para a beleza da paisagem.
O encontro nem sequer tinha sido adiado. Estava tão bem que, provavelmente esse encontro, era algo que a minha parte mais fraca teimava em querer, mas no fundo já não precisava dele.

Acordava cansado, irritado, projectando cenários de tensão futuros, uma intensa ânsia de possuir, à procura de algo com que me pudesse identificar, apenas para me sentir vivo, sem saber que isso me estava a matar aos poucos e, quase matou, pois é na morte que nos despedimos de tudo o que não somos e, o somatório de mim era maioritariamente o tudo que eu não era.

Vestia o meu melhor fato, feito à medida, olhava-me ao espelho e lá vinha a “voz”:
-Quem és tu afinal?
-O que estás a fazer a ti próprio?
– Estás um caco, nem esse fato te safa.

O encontro

A busca de validação em coisas materiais, na minha imagem, na minha validação social, no meu trabalho, na minha aparência, no meu prestígio já não me satisfazia.
Tudo era momentâneo, pois
assim que atingia o objetivo descobria que o vazio continuava a existir, que não tinha fim.
Não me conseguia iludir mais a mim próprio, ou talvez conseguisse, mas era cada vez mais difícil.
Tinha batido de frente contra o meu pior problema, o Ego! O ego que cega, o ego que limita, o ego que destrói, o ego que nada traz e tudo leva. Leva-nos a nós.
Passaram-se muitos anos e na altura que bati de frente contra ele, o meu interior desfez-se. Estava tudo errado. A minha essência tinha sido completamente desvirtuada.
Encontrei uma pessoa que desconhecia, mas o mais doloroso é que sempre esteve cá e eu, sempre a ignorei.

Afinal, a voz, aquela inquietude, aquele desconforto, não era mais do que algo dentro de mim a indicar-me o caminho, aquele caminho que me iria permitir renunciar a tudo isso, pois a minha verdadeira identidade não poderá ser encontrada no exterior.

Mais cedo ou mais tarde isto tinha de acontecer e, cheguei à conclusão que quanto mais adiamos, pior é esse embate com a realidade e, essa realidade vem mascarada de dor, sofrimento.
Mascarada porque inicialmente não tinha capacidade para perceber como iria ser profícua, enriquecedora e acima de tudo, rejuvenescedora.
Chamo-me Fábio e quando me olho ao espelho todas as manhãs vejo o verdadeiro reflexo do que sou.

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