O Pedido

O Pedido

Os pedidos mais importantes são imateriais, são aqueles que não conseguimos colocar num carrinho de supermercado e que dificilmente alguém nos pode dar.

 

Aquilo que pedimos não se limita apenas ao valor, mas a algo muito mais profundo, á nossa essência, aquilo que somos e que em muitos casos, vamos perdendo ao longo da vida, única e simplesmente, por afastamento.

Quando escolhemos certos caminhos, são opções que em determinada altura achamos as melhores, por vezes, sem alternativa, outras como solução em detrimento de algo. Escolhas em consciência ou de coração, as últimas, chamo-as, escolhas de essência.

Quando estava no secundário, tal como muitos da minha idade, fiz os testes psicotécnicos e, a conclusão era a de que eu tinha apetências para escrita e como tal, como profissão, surgiu jornalista. Confesso que tinha um grande gosto pela escrita, mas, raramente escrevia. Não tinha ideias, não deixava fluir para esse campo, então, neguei e não atribui qualquer importância a esse teste.

Quinze anos mais tarde cruzaram-se duas linhas na minha vida, a linha da saturação e a linha da saúde. Aí, fui obrigado a ouvir o que vinha de dentro, abaixo do pescoço e acima do umbigo, do lado esquerdo. Agradeci, não pedi, já tinha pedido tanto em toda a minha vida, que tinha chegado a altura de agradecer e, o Eu essência foi aparecendo, sem nunca me lembrar daquele teste feito uns anos antes. De tão mal que me sentia nesse momento em que as duas linhas se intersectaram, escrevia, como forma de alivio, de mim, para mim.

É nos períodos de caos que a nossa essência começa a vir ao de cima e aí, dificilmente a podemos silenciar. É a essência que nos dá o verdadeiro valor, que nos valida internamente, perante nós próprios. A nossa essência é um amor incondicional que surge de dentro para fora sem necessidade de validação ou feedback exterior. Foi no momento de caos que o medo me abandonou.

Um sentimento de pertença e de não pertença, muitas vezes amplificado. Há aquela chama que nunca se apaga e, é nestes momentos, que há uma proximidade e um reflexo do que é o amor incondicional. É esse amor que nos aproxima da verdade, que não cabe dentro de nós e por mais anos que passem, nunca caberá, o amor-próprio.

Se hoje pudesses fazer um pedido, aquele pedido que vem de ti e que mudaria a tua vida, o que pedirias?

O que acontece na tua vida não é para ti, mas sim, por ti.

 

Se o que acontece na tua vida pode, na maioria das vezes, ser controlado por ti, o que é que estás a fazer por ti?

 

Acredito que estejas a fazer o melhor que podes, da forma que sabes, nas circunstâncias que a vida te permite. Nem sempre o melhor é o máximo que podemos dar, mas sim, aquilo que estamos habituados a dar.

A forma, muitas vezes corrompe o conteúdo e com isso podemos estar a tentar impor unicamente um lado da verdade, projetando no que não controlamos e nas outras pessoas, atitudes que desejamos. Isso leva-nos a um afastamento da nossa essência e esse afastamento leva-nos também a segurança e o equilíbrio.

As circunstâncias são determinadas pelos momentos que atravessamos, alturas na vida em que lutamos contra tudo e contra todos, mas na verdade, essa luta é interior, contra nós, embora seja confortável exteriorizar aquilo a que de uma forma comum chamamos raiva.

Há alturas em que a raiva se vira contra ti, aqueles momentos em que queres ser diferente, queres alterar algo na tua vida, mas simplesmente não consegues sair da tua zona de conforto e da mesmice, em que te identificas com algo que já não queres mais, mas que não consegues, como se uma força superior te impedisse de fazer diferente.

Quantas vezes deixaste algo para fazer e foste adiando, encontrando justificações confortáveis para a procrastinação?

Tal como eu, várias vezes. Até aquele dia em que dizes “Basta, já chega, é hoje!”. Isso é a raiva exteriorizada, aquela que nos permite entrar em ação.

É aí que agradeces o impulso para a ação, em que deixas de te identificar com a mesmice e te esqueces das crenças que limitam, dos medos e sais do circulo que delimita a zona de conforto e avanças para algo que até te pode trazer dor, mas nunca uma dor maior do que aquela que vai aumentando em ti por acreditares que não consegues.

Quando sentes um impulso, consegues identificar o que está por trás dessa raiva saudável que te leva a agir, para além do simples fato de teres de fazer?

Esse impulso é gerado por um motivo e esse, poderá ser a chave para que no futuro tenhas sempre essa ferramenta disponível quando a quiseres utilizar.

Levanto-te apenas a ponta do véu: Identificação!

 

Fábio Costa

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